Exposição Permanência, de Ricardo Theodoro

A exposição Permanência pontua o final da pesquisa de mestrado de Ricardo Theodoro, na linha de Poéticas Contemporâneas no Instituto de Artes da UnB. Durante dois anos o artista  dedicou-se a investigar poeticamente os diferentes mecanismos envolvidos nos rituais de rememoração e esquecimento, na sua relação com um espaço de afeto, o apartamento, o pilotis e a superquadra onde cresceu, e onde sua avó residiu por mais de 30 anos. 

Em uma cidade marcada pela monumentalidade e pelo ordenamento, característico do desenho moderno, o interesse da pesquisa se focou nos espaços do cotidiano, e na forma como as famílias que vieram para Brasília se apropriaram da mesma, criando formas peculiares de se viver nos espaços, a partir da fricção entre a arquitetura e o urbanismo racionalista e as práticas urbanas de suas experiências pregressas. 

Ricardo Theodoro formou-se em arquitetura e urbanismo pela UnB, e foi depois de retornar de uma especialização em fotografia no SENAC, em São Paulo, que resolveu pesquisar a influência dos espaços de afeto na construção de nossa subjetividade.

A exposição na Galeria Ponto, que tem curadoria e expografia de Matias Monteiro, conta com fotografias, vídeos e objetos, que pontuam esse percurso de investigação das relações entre espaço e memória na imagem.

Mais informações sobre o artista podem ser encontradas no site www.ricardotheo.com.br

Serviço:

Exposição "Permanência"
Fotografias, vídeos e objetos.
Artista: Ricardo Theodoro.
Curadoria: Matias Monteiro.
Local: Galeria Ponto. 716 norte, Bloco "L", Casa 39. CEP 70770-742. Brasília-DF
Abertura: Sexta-feira, 22 de Agosto, das 19 às 22 horas.
Visitação: 22 a 31 de Agosto.


Texto curador

Permanência

como desaparecer completamente

Nosso olhar é perpetuamente assombrado pelo já visto. Esse assédio, essa persistência, dota a memória de uma qualidade, por vezes, excessivamente visual:  faz da lembrança a expressão de uma certa desmesura da imagem e faz do olhar um incessante processo de atualização. Assim, muitos são os lugares em que distintos tempos são convidados a coabitar, muitas são as frestas nas quais nossos afetos se abismam.

A obra de Ricardo Theorodo nos convida a ocupar esse espaço lacunar; estamos sempre em função de um evento já transcorrido e ao qual temos acesso apenas por meio de seus efeitos e vestígios afetivos. Todos os tempos são pretéritos, todos os lugares, de algum modo, obsoletos. Não é de se espantar que esse interesse se manifeste em uma espécie de fantasmagoria do espaço (na aparente equidistância entre arquitetura e fotografia), em gestualidades poéticas que se materializam em diferentes densidades. Há sempre uma saturação, uma nebulosidade, uma imprecisão que revela a rememoração como um exercício de cumplicidade com o lugar (ou esse espectro de um lugar).

Na falta de um vocabulário mais adequado, permitimo-nos conduzir pelos devaneios infantis. Uma grande descoberta pueril (pois todas as descobertas pueris podem ser designadas como "grandes") foi quando percebi que era possível observar a Lua em um claro céu diurno.  Sua presença, indevidamente desassociada de seu confinamento noturno, era pálidas, mas claramente discernível. Esse registro astronômico não parecia digno de espanto para os outros, mas essa desconcertante apatia não tornava o evento menos memorável. Tratei logo de lembrá-lo, cerrando os olhos com força, empreendendo todo o poder de minha convicção infantil, tentei forjar um traço mnemônico, uma lembrança moldada por força da vontade. E lembro até hoje, não exatamente como uma cena, mas como efeito de uma desconcertante imagem estática: a Lua, ali, aonde não deveria estar, esmaecida por força desse desarranjo.

Ora, não seria essa mesma qualidade de algum modo translúcida, "diáfora", que  insistem em revelar as fotografias, vídeos e objetos de Ricardo Theodoro? Aqui a memória não funda o espaço, o irrompe, o transfigura, intuí dele as mais improváveis elasticidades: o mundo se curva, se dobra, se estende a nossa frente, parece capaz de conciliar todas as estaturas.  Os pisos se erguem a visão do adulto, as minúcias são ampliadas as imensidões.

O Monólito, suposta geologia da peça única, revela-se um artefato/gesto. O monólito como corpo inusitado, monumento em perpétua crise com seu contexto. O monumento-lacunar,  monumento ao enigma da intencionalidade da intervenção, monumento ao mistério formal, geométrico. Estamos já a falar de Brasília.

Na obra de Ricardo, Brasília não é jamais mirante, ponto de observação do qual lança-se um olhar; a organização do espaço moderno é assunto, condição e suporte dessa afetividade que faz da memória uma questão de escala, um exercício de grandezas estipuladas por diferentes plasticidades (pilotis, pilares, pastilhas, tacos, granitina...).

A Lua empalidecida a pleno dia; lapso entre lugar (topográfico, doméstico, arquitetônico) e tempo (obsoleto, nostálgico, impreciso, transcorrido) convergindo na imagem do corpo que se desintegra ao espaço, um espaço convertido em paisagem e uma paisagem convertida  na própria fantasmagoria da memória.

Matias Monteiro
2014